“O erro anda na mesma velocidade do acerto”

Tecnologia é algo curioso, sempre olhamos com admiração no que é possível fazer, mas muito pouco ou nada com relação às suas consequências.

O impacto da tecnologia muitas vezes se assemelha a uma bala perdida: a intenção inicial é atingir um alvo específico, mas, ao errar a trajetória, as consequências tornam-se imprevisíveis.

Participando de eventos e feiras de tecnologia recentemente, notei uma euforia contagiante sobre a aplicação da tech nos negócios. No entanto, o entusiasmo com a inovação raramente se estende ao debate sobre a extinção de postos de trabalho.

É inegável que a tecnologia pode gerar empregos. Veja o caso da telemetria na Fórmula 1: as funções tradicionais de mecânicos e equipe de apoio permanecem, mas agora somadas a engenheiros de dados e desenvolvedores. É um exemplo claro de como a inovação pode aumentar a segurança e criar novas demandas.

O problema surge quando a tecnologia se torna uma obsessão pela redução de custos. Na própria F1, pergunto-me se não chegará o dia em que alguém decidirá que um robô troca pneus melhor que um humano, eliminando toda uma equipe em favor de um único operador.

Muito do que avançamos foi focado em conveniência. O delivery, por exemplo, é fantástico para quem recebe, mas criou uma legião de entregadores que arriscam a vida diariamente sob condições precárias. Como profissional da área há muitos anos, sempre acreditei que a tecnologia deve facilitar e complementar a vida humana, não a substituir.

Hoje, a IA oferece respostas rápidas e otimização, mas o uso indevido desse poder focado apenas em “enxugar” quadros — como vemos na substituição de jovens em contact centers — está trazendo prejuízos sociais silenciosos. Estamos trocando o valor das pessoas pela eficiência fria dos algoritmos.

Aí temos que olhar a máxima “o erro anda tão rápido como o acerto”.

O Abismo Social da Eficiência Tecnológica

Estamos caminhando para uma crise social sem precedentes? O cenário de pessoas sem meios para sustentar suas famílias e jovens sem perspectiva de futuro pode soar como ficção científica, mas já bate à nossa porta.

O Rio de Janeiro é um exemplo doloroso e real: embora a decadência da cidade tenha raízes políticas e administrativas, o resultado — desemprego e falta de horizontes — é o mesmo que a tecnologia desenfreada ameaça criar. O vácuo deixado pela ausência de postos de trabalho foi rapidamente preenchido pelo crime organizado.

O desequilíbrio é ético. Hoje, o lucro das empresas de tecnologia por cada funcionário é centenas de vezes superior ao que a Ford gerava em seu auge. É uma dinâmica imoral: fatura-se absurdamente empregando-se cada vez menos.

Precisamos resgatar o conceito de que a principal função social de uma empresa não é criar fundações filantrópicas, mas sim gerar empregos. O trabalho é o motor que sustenta famílias, gera impostos, estimula o consumo e promove o desenvolvimento nacional.

É fácil teorizar sobre automação na Noruega. No entanto, mesmo os países desenvolvidos já sentem o reflexo dessa desigualdade através da imigração ilegal em massa. No médio prazo, a conta chegará para todos: sem emprego, não há estabilidade social, independentemente da geografia.

Bom, o fato é pensar na frase “o erro anda na mesma velocidade do acerto” e a falta de emprego é um problema que não estamos olhando com seriedade.

M.A.Vidal – LinkedIn