Por Que Odeio Contratos (e Por Que Continuo a Ater-me aos Detalhes)

Acho que já estive envolvido em mais de 1.000 contratos ao longo da minha vida profissional: assinando, analisando, ajustando e discutindo. Ou seja, já fiz de tudo um pouco, mas continuo não gostando.

Ler cada cláusula, ater-me aos detalhes e não deixar passar nada sempre foi uma preocupação constante. Por causa desse rigor, as pessoas que trabalham comigo costumam achar que sou muito bom nisso.

Realmente acho que a minha palavra vale mais que um contrato, até porque contrato pode ser contestado a palavra, bom essa define sua ética.

Hoje, confesso que me sinto mais confortável porque a tecnologia ajuda: uso a ferramenta de leitura em voz alta e vou acompanhando o texto. É uma tática pessoal para garantir que nenhum detalhe escape.

Pode parecer simples, mas o acompanhamento visual da leitura conjunta ajuda a manter o meu foco.

Outro ponto de atenção é a fidelidade aos alinhamentos prévios: o que foi combinado, seja em conversa ou em proposta, precisa estar expressamente refletido no contrato. Não concordo com cláusulas mantidas sob a justificativa de que “estão no papel, mas nunca acontecem na prática”, a Lei de Murphy não falha, acontece mesmo.

Por fim, prefiro não misturar detalhes operacionais e estruturais do projeto com regras contratuais ou condições comerciais e de pagamento. Isso polui o documento e tira o foco do principal. A estrutura do projeto deve ser tratada em um anexo específico, direcionado à equipe responsável.

Não fico preso a filigranas jurídicas, essas deixo para os advogados, que realmente entendem do assunto. O meu foco está sempre nas condições do negócio: responsabilidades, entregas, preços e termos comerciais que impactam diretamente o que foi proposto.

Em uma das empresas onde trabalhei, o advogado me chamava de “professor”. Não sei se era ironia ou se era porque eu sempre ia debater cláusulas com ele antes de fecharmos com os clientes, afinal, eu já tinha 20 anos de bagagem negociando contratos de serviços e software.

Minha aversão ao tema é tanta que meu sócio (e filho) acabou se tornando especialista no assunto. Hoje, como advogado, ele presta serviços focados em contratos para um dos maiores grupos de mídia do Brasil.

O pior é ver certas empresas criarem contratos insanos de tão longos e detalhados, dificultando a vida de advogados, gestores e contratantes.

Vivi isso ao dar consultoria para uma indústria de médio porte que estava contratando um ERP: o documento era propositalmente complexo para o fornecedor se blindar de falhas futuras.

Isso sem falar nos contratos de telefonia e internet, em que nem adianta ler, pois só restam duas opções: aceitar ou cancelar o serviço.

Mas o que me levou a escrever hoje foi um “causo” recente.

Eu precisava contratar um escritório de advocacia nos Estados Unidos. Como sou criterioso, selecionei seis escritórios, criei um questionário de pontuação e iniciei a avaliação. Descartei todos com média inferior a 9 e comecei a negociar os honorários com os demais.

Escolhi o terceiro da lista, acertamos os valores em dólar e pedi a emissão do contrato. Recebi o documento pré-assinado, mas notei um detalhe: os honorários estavam grafados em reais, enquanto os demais custos estavam em dólares.

Pensei: “Foi uma desatenção, mas não quero desatenção no serviço prestado.”

Para ver se eles notariam o equívoco, fiz uma pergunta sobre um valor em dólar citado logo no parágrafo abaixo dos honorários, direcionando a atenção deles para a falha. Veio a resposta, mas não viram o erro. Fiz um novo questionamento genérico e, novamente, deixaram passar.

Como sou empático e tinha gostado do advogado, não queria trocar de escritório. Dei corda, assinei digitalmente e solicitei a via deles. Paguei o valor equivalente em dólares referente ao contrato que estava em reais, só para ver até onde iriam, sabendo que faria o ajuste depois.

Até porque, como falei antes, minha palavra é mais forte que um contrato, eu havia me comprometido com os valores.

Quando o setor financeiro deles recebeu o valor em dólar, do contrato em reais, o alerta finalmente acendeu. Eles me questionaram, e eu pedi que relessem o contrato. Deixei claro que sabia do erro desde o início, que não me negaria a pagar a diferença e solicitei um termo aditivo.

Para minha surpresa, no dia seguinte recebi uma mensagem informando que estavam desistindo da minha causa e devolvendo o dinheiro.

Fiquei aliviado por um lado, mas chateado por ter perdido duas semanas. O que eu esperava daquele advogado era apenas um pedido de desculpas e uma justificativa profissional, pois era nele que eu depositava minha confiança.

Moral da história: ter alguém na organização com paciência para ler contratos nos mínimos detalhes não é despesa, é investimento. Mas eu continuo não gostando de fazer isso.