
O Custo da Pisada em Ovos: Por que o Mundo Corporativo Teme a Espontaneidade?
No mundo corporativo, expressar-se tornou-se uma tarefa complexa. Medimos cada palavra, avaliamos repercussões e antecipamos quem pode se sentir ofendido. Em resumo, sacrificamos a espontaneidade — um “input” fundamental para identificar distorções, captar novas ideias e inovar.
Tenho um amigo, excelente no relacionamento com clientes, que faz uma analogia perfeita com o futebol: “Em campo, você grita com o companheiro, ele fica bravo, mas o objetivo é o mesmo: ganhar. Não dá tempo de polir cada frase”. O ponto não é estar certo ou errado — isso só se julga depois de dito. O importante é a coragem de falar e a abertura para ouvir sem armaduras. Não falo de discussões vazias, mas de feedbacks genuínos, de mostrar como realmente enxergamos as coisas.
Aprendi isso com um antigo gerente. Ele costumava levar a equipe para “tomar um chope”. Ali, ele deixava de ser o “chefe” para se misturar ao grupo. As pessoas se soltavam e confiavam que não haveria represálias. Ele não liderava pelo cargo, ele conduzia pela escuta.
Sem espontaneidade, o trabalho vira um teatro. E nós somos os diretores desse palco quando criamos ambientes que inibem o erro. Fazemos o mesmo com as crianças: enquanto pequenas, incentivamos sua comunicação direta, mas logo as moldamos às convenções sociais.
Outro dia, no elevador, vi um garotinho com a mãe. Ele usava o boné de um clube e, para puxar conversa, perguntei: ‘De quem é esse boné?’. A resposta foi a mais lógica possível: ‘É meu’. No mesmo instante, a mãe, percebendo que minha intenção era outra, tentou repreendê-lo. Intervi prontamente, afinal, a resposta dele foi a mais pura e correta expressão da espontaneidade.
Lembro-me de um dilema publicado em um jornal americano: em um balão em queda sobre o oceano, com um advogado, o Papa e o Presidente dos EUA, um precisaria saltar para salvar os outros dois. Quem escolher? Surgiram teorias complexas sobre religião e política. O vencedor foi uma criança que respondeu o óbvio: “O mais gordo”.
Com o tempo, essa clareza se perde sob a influência da escola e da sociedade. No escritório, entramos empolgados, mas nos encolhemos à medida que percebemos que nossas sugestões são filtradas pela política interna. É exaustivo ser excessivamente cauteloso. Escrevemos, revisamos e nos policiamos tanto que a comunicação trava. O medo de ser mal interpretado gera a omissão.
Nessa dinâmica, todos perdem. O profissional se sente frustrado e inseguro, a empresa perde o olhar criativo e a experiência de quem vê o problema de fora. No campo da vida real, como diz meu amigo, não dá para pedir “por gentileza” que alguém passe a bola no meio de um contra-ataque.
E você? Já sentiu que sua espontaneidade foi “engolida” pelo crachá?


